Eu Quem Somos


 Somos resistência

Não é de hoje que a arte está em constante ameaça, não só pelo cenário político atual mas desde muito tempo o incentivo aos artistas sempre foi precário, porém isso nunca foi um impedimento. Nesses momentos de limitações artísticas, fazer arte se torna um ato de resistência, portanto, é através dessa história que entenderemos a necessidade de ser artista. Nosso cenário se inicia com a vida de um ator carioca que viu através de seus textos que era preciso colocar as suas ideias para fora. Ricardo Baggio sabia desde pequeno que a sua vocação era o teatro. Iniciou sua carreira aos cinco anos numa peça da cantora Xuxa e desde então sabia que a sua vida seria artística. Em 2017 se formou no instituto CAL de Arte e Cultura e hoje em dia acumula na sua trajetória mais de trinta espetáculos como ator, sendo eles: peças, musicais, filmes e documentários.
            Movido pelo seu incomodo e pelo anseio de fazer a arte acontecer, Ricardo criou a peça “Eu quem somos”. Um longo processo de mais de um ano de criação, retoque, revisões e críticas. Junto com o seu diretor João Bernardo Caldeira, mestre em artes da cena e graduado pela UFRJ, os dois adentraram numa caminhada profunda e intensa que demandou abertura e entrega de toda uma equipe criativa.
            Entre ensaios e debates Ricardo se divide em ser o produtor da peça; fazer planilhas, buscar locais para se apresentar e inscrições em editais são algumas tarefas que o ator diz serem essenciais no processo. Ao ser perguntado do por que fazer a peça, Ricardo expressa a sua vontade de colocar as discussões em cena.
 “O monólogo surgiu da necessidade de expressar, discutir, questionar e construir diante do atual cenário de falta de escuta e diálogo e das diversas crises em curso. ”
            Esse é o quarto espetáculo do Coletivo Cosmogônico (RJ), surgido no curso de direção teatral da UFRJ em 2014 no qual o ator faz parte. Podemos dizer que a peça tem se tornado essencial. “Eu quem somos” quer se colocar no lugar de gerar discussões da atualidade sobre gênero, privilégios, tinder, etc. Um espetáculo que um jogo de luz impecável, músicas e áudios recheiam o monólogo criando uma reflexão constante. A peça traz reflexões de diversos pontos do nosso cenário brasileiro. Lembro de ter ido assistir sem nenhuma pretensão e com um único desejo: prestigiar um amigo de longa data, mas mal sabia eu que seria surpreendida pela arte mais uma vez. De boné na cabeça Ricardo entra em cena com um olhar muito suspeito, é o primeiro personagem da peça. Com um casaco e calça azul, somos introduzidos a uma atmosfera de tensão. De um lado uma iluminação que contrasta muito bem com o ator e a proposta da cena, e de outro um cenário que mesmo sendo simples, traz fortes alusões para a composição de cada elemento dramatúrgico.

 Com de uma hora de peça, Ricardo resolve brincar com o que é ser ator. Ser ator e ter o poder de dialogar com um público que não sabe dizer se o que estão vendo é de fato um personagem ou uma outra faceta do artista. Um ser ator que causa indagação sobre nossas próprias convicções, que gera desconforto através da empatia e delicadeza e que exige seu reconhecimento perante às dificuldades do que é fazer arte no Brasil.
.           A cada cena um novo tema é introduzido. Conforme as discussões mudam novos personagens aparecem, e mesmo se tratando de assuntos polêmicos, a peça traz uma delicadeza não só às variáveis opiniões que perpassam cada tema, mas o respeito sobre a relevância dos acontecimentos abordados.
Depois de duas grandes temporadas, uma estreada em maio no Teatro poeira e a segunda no teatro Municipal Café Pequeno, o monólogo é sem dúvida um grande passo na vida do ator, que busca rodar com a peça pelo Brasil a fora. “Eu quem somos” representa os tipos de arte que o Brasil pode fazer, é a cena artística mostrando que a arte sempre retomará o seu lugar, de contestação. “Eu quem somos” é a evidência do por que fazer arte do Brasil sempre será importante.

Ficha técnica:
Direção: João Bernardo Caldeira
Atuação: Ricardo Baggio
Dramaturgia: João Bernardo Caldeira e Ricardo Baggio
Iluminação: Gabriel Prieto
Trilha Sonora: Pedro Botafogo
Preparação Corporal: Caroline Ozório
Cenário e figurinos: João Bernardo Caldeira
Operadora de luz: Natali Barbosa
Design Gráfico: Bianca Oliveira
Direção de Produção: Ricardo Baggio e João Bernardo Caldeira
Duração: 80 min




Ricardo Baggio -  entrevistado.



Comentários